O Brasil foi o primeiro país do mundo a tornar obrigatório o relatório financeiro de sustentabilidade nos padrões internacionais do ISSB, o chamado relatório ESG obrigatório. Durou pouco o pioneirismo.
Em maio de 2026, semanas antes de a regra pegar de fato, a CVM revogou a obrigatoriedade. Ficou a pergunta no ar: foi realismo ou retrocesso?
O que a CVM mudou
A Resolução CVM 193, de 2023, previa adoção voluntária a partir de 2024 e obrigatória a partir dos exercícios iniciados em janeiro de 2026, com base nos padrões IFRS S1 e S2.
Em 29 de maio de 2026, a Resolução CVM 244 derrubou essa obrigatoriedade e colocou no lugar o modelo “pratique ou explique”. Publicar o relatório ESG virou opção.
Quem decidir publicar precisa seguir o padrão internacional e manter o reporte por pelo menos três anos. E, a partir de 2027, quem optar por não publicar terá que justificar a escolha ao mercado.
Quem defende a decisão
Do lado de quem aplaude, o argumento tem pé no chão. A obrigatoriedade impunha um custo pesado de conformidade, com auditoria e infraestrutura de dados que boa parte das empresas ainda não tinha pronta.
Adiar a exigência dá tempo de amadurecer os processos internos antes de expor números frágeis ao investidor. E o padrão contábil segue valendo para quem opta por reportar, o que preserva a comparabilidade.
Nessa leitura, a CVM não largou a agenda, só afinou o instrumento.
A adoção dos padrões do ISSB, aliás, foi recomendada pela IOSCO, o fórum internacional de reguladores de mercado, então manter esse padrão como referência para quem publica preserva o alinhamento global.
Quem enxerga um recuo
Do outro lado, o incômodo também tem fundamento. Sair da vanguarda para o “pratique ou explique” bem na véspera de a regra valer soa como pisar no freio na descida.
Sem obrigatoriedade, a comparação entre empresas fica capenga, porque cada uma decide o que e como divulgar. E vem o risco mais previsível: transparência que vira opcional costuma encolher para aquilo que a empresa quer mostrar, o que abre espaço pra maquiagem verde.
O país tinha um trunfo regulatório raro e o rebaixou a intenção.
Para o investidor estrangeiro que usa esses relatórios pra decidir onde colocar dinheiro, informação padronizada e comparável era parte do atrativo, e ela virou opcional bem no momento em que o capital global cobra mais critério socioambiental.
O que isso muda pra água
Para qualquer negócio que usa água, o efeito prático é direto.
Risco climático e risco hídrico eram parte central desse reporte. Com a divulgação facultativa, o consumo de água, a dependência de outorga e a qualidade dos efluentes de uma empresa podem sumir do radar público.
A regra afrouxou, mas o risco físico continua igual. Uma bacia sob estresse segue sob estresse, tenha ou não relatório publicado.
Por isso a decisão da CVM pesa menos do que parece pra quem já leva a gestão hídrica a sério.
Empresa que mede o próprio consumo, reúsa água e trata efluente ganha proteção contra tarifa, seca e fiscalização, com norma ou sem norma.
Esse controle vira vantagem competitiva num cenário em que o concorrente pode se dar ao luxo de não olhar. Já mostramos como o reúso derruba o custo de água em operações reais, e o primeiro passo continua sendo medir o consumo, com ou sem obrigação legal.
O relatório ESG obrigatório saiu de cena por ora, mas o risco que ele media segue firme.
Um diagnóstico técnico mostra o tamanho real da sua exposição hídrica, seja qual for a exigência da regulação amanhã.

