A dessalinização de água está em alta no Brasil. A Confederação Nacional da Indústria divulgou um estudo apontando que a tecnologia pode reduzir em até dez vezes o custo da água para a indústria, e o Ceará toca um megaprojeto de R$ 3,2 bilhões em Fortaleza.
O discurso de “autonomia hídrica” seduz. Antes de comprar a ideia, vale olhar o que o folheto não mostra.
Onde a dessalinização brilha
Em alguns lugares, ela resolve de vez. Fernando de Noronha instalou uma planta de osmose reversa em 2021, acabou com o racionamento severo e aumentou a oferta de água em 122%, o que destravou o turismo da ilha.
No Espírito Santo, uma usina já abastece cerca de 80 mil pessoas. Fortaleza aposta em dessalinizar 1 m³ por segundo pra atender perto de 12% da região metropolitana, num cenário em que o açude do Castanhão, a 280 km da cidade, seca ano após ano.
O projeto, uma parceria público-privada de 30 anos, deve entrar em operação em 2026. Onde não há rio, aquífero ou efluente pra reaproveitar, tirar água do mar se torna a saída realista.

O preço que não entra no folheto
O problema é o custo, e ele é alto. A osmose reversa consome de 3 a 10 kWh por metro cúbico, e a energia responde por 40% a 60% da operação de uma planta.
Pra dar dimensão, dessalinizar mil litros pode gastar perto de 8 kWh, quase o consumo diário de energia de uma casa de três quartos. Em sistemas menores, sem escala, o custo de produção passa de R$ 14 por metro cúbico somando estrutura e energia.
Tem ainda a salmoura, aquele concentrado de sal que sobra no processo e pode agredir a vida marinha, e que no Brasil sequer tem marco legal pra descarte.
Some o licenciamento ambiental complexo e a conta pesa. Em Fortaleza, a planta virou até briga: ela fica na Praia do Futuro, ponto de chegada dos cabos submarinos que carregam quase todo o tráfego de internet do país.
Por que o reúso costuma ganhar no Brasil
O detalhe que muda tudo é geográfico: o Brasil não é um deserto. Ao contrário de Israel ou dos Emirados, que dessalinizam por falta de opção, a maior parte do território tem água, ainda que mal distribuída e mal cuidada.
E tem efluente de sobra pra reaproveitar. Nesse contexto, fabricar água nova a alto custo energético enquanto se joga fora água já captada é uma escolha estranha.
O reúso ataca o problema pela raiz. Em vez de gerar água do zero, reaproveita a que já circula, com uma fração da energia e sem salmoura pra descartar.
Pra maioria das operações brasileiras, ele entrega mais resultado por real investido do que a dessalinização, que faz mais sentido como complemento em casos específicos de litoral e semiárido.
A conta que importa pra sua operação
A pergunta certa muda de foco: em vez de “qual tecnologia é melhor”, vale perguntar onde a sua operação está desperdiçando água agora.
Boa parte das empresas descobre que dá pra cortar consumo e custo só com reúso, tratamento de efluente e monitoramento, sem precisar de obra bilionária.
Já mostramos como o reúso derruba o custo de água em operações reais, e o ponto de partida continua sendo medir o consumo pra saber onde a água escapa.
Dessalinização de água tem o seu lugar, principalmente onde não sobra alternativa. Tratar tudo como caso de dessalinizar, porém, é pular etapas e gastar mais.
Um diagnóstico técnico mostra qual caminho faz sentido pra sua realidade antes de você investir na solução mais cara.

